segunda-feira, janeiro 23, 2006

Olé!!!! Eternamente Marieta Buarque Severo de Holanda







Beatriz
Edu Lobo - Chico Buarque/1982

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
OlhaSerá que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divinaA vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida


Marieta Severo não tem medo da vida nem da velhice

Separada depois de um casamento de 30 anos, que sobreviveu quando quase todos os da sua geração naufragavam, Marieta Severo se deparou com detalhes reais e imaginários de sua vida expostos na imprensa.
"Especulações, boatos, mentiras, fiquei indignada ao ver isso acontecendo na minha vida", reagiu.
"Nesses 33 anos de carreira nós nos acompanhamos - vocês, imprensa, nós, artistas - e, pelo nosso comportamento, Chico e eu achamos que todo mundo tinha compreendido e íamos ter o respeito e a delicadeza com que estávamos tratando das nossas coisas, mas viraram o balde."

Chico e Marieta também não acreditaram quando leram o texto racista de um jornal de Goiás, escrita por um profissional negro, sobre o neto - filho de Helena (Lelé) e Carlinhos Brown.
Pais de Luíza, de 22 anos, Helena, de 27, e da atriz Sílvia, de 29, o casal que se uniu na ditadura se exilando na Itália e boicotando os veículos que boicotavam qualquer um deles, Marieta e Chico se uniram mais uma vez nessa guerra.
Desta vez, contra as intromissões na família, que continua a passar o Natal na casa da Gávea e o réveillon no apartamento de Paris. "Chico fez, faz e fará sempre parte da minha vida, não tem jeito, ninguém conhece a gente como um conhece o outro, a gente sempre estará inconscientemente um na vida do outro", diz.

Apaixonada por balé desde os espetáculos no Municipal com a avó Marieta, ela se casou há 30 anos - sem papel - com o estudante de arquitetura Francisco, depois de um casamento relâmpago com o artista plástico Carlos Vergara.
Ali, como na história daquele baile na peça A Dona da História, de João Falcão, o destino foi traçado.
"Mas Chico continua arquiteto, o que mais vi foi o Chico fazer mapas de cidades imaginárias."

A casa onde ela mora na Gávea, madeira encravada no verde, foi traçada por Chico.
"Estamos fazendo uma casa em Petrópolis e tem o dedo dele; não adianta, o Chico tem cabeça de arquiteto."

"A gente continua, tem um nó que a gente não consegue abandonar", ela afirma.

Chico está num apartamento no Jardim Botânico, arrumado em parte por Marieta. Ela só teme novas correlações nos discos novos de Chico. "Por mais que eu tenha estudado balé e quisesse seguir carreira, a música que fala `ele é funcionário, ela é bailarina' não tinha a ver conosco", avisa.

"Beatriz, uma das músicas do Chico que eu mais adoro (`será que é pintura/ O rosto da atriz/... E se eu pudesse entrar na sua vida'), não foi feita para mim", informa.

"Vi o Chico rindo várias vezes com a leitura ao pé da letra que faziam das músicas dele; o processo de criação passa por outro caminho, a gente às vezes fala de dor-de-cotovelo no momento em que está muito bem na vida, essas interpretações são risíveis."
Marieta não tem medo nem da vida nem dos papéis que começam a rarear no mundo todo para mulheres com mais de 50. "Mas no Brasil é pior, ser jovem é uma qualidade em si, eu me pergunto como essa gente vai envelhecer." E lembra: "Outro dia vi uma atriz muito cuidadosa com o seu corpo dizer que só ia ser atriz até os 40 anos; uau!, mas é depois que começa a ficar bom."

Couraças - Atônita com a supervalorização do personal trainner na formação dos atores brasileiros, ela cita Klauss Vianna, o mago do corpo, que morreu há dez anos e passou a vida ensinado atrizes e bailarinas a tomar consciência dos próprios movimentos. "Ator tem de ter o corpo maleável para passar sensações, emoções, a musculatura deve estar trabalhada para filtrar isso, mas, meu Deus, os atores estão virando couraças."

Ela se lembra de como se comoveu ao assistir a um dos últimos filmes de Katharine Hepburn. "Tinha mal de Parkinson, estava tremendo, mas atuava com tamanha dignidade que era um recado de quem, para o bem e para o mal, se propôs a exercer o ofício até o fim."
Isso, para Marieta, é ser atriz.

No Brasil, onde há a ditadura da glamourização, ela sentiu um alívio ao interpretar a peluda Carlota Joaquina. "A diretora, Carla Camurati, falava, `chega de bigode, Marieta, você já está parecendo o Pepe Legal', mas eu exagerava ainda mais", ressalta. "Esses papéis me confortam, a feiúra no palco nunca me assustou, ser glamourosa é que requer um esforço excepcional."

Imposições - Ela se espanta com as imposições da televisão. "Antes de dizer, `nossa, como o personagem está bem', as pessoas devem dizer nossa, como seu cabelo está bem', e então você sabe que foi aceita." Ela sabe que televisão vive de imagem e precisa desse consumo. "São pessoas que surgem e desaparecem, enfeitam novelas e evaporam, mas se não tiver uma Fernanda, um Fagundes, uma Suzana Vieira, uma Regina Duarte, ninguém segura uma novela, não."

Marieta lembra-se do tempo em que viveu um estranho personagem, o Rato, na fase cubana de Glória Magadan na novela O Sheik de Agadir. "Tinha de tudo, espião da Gestapo, soldados da Legião Estrangeira, odaliscas na restinga de Marambaia, mas nada igual ao terremoto que ocorreu na minha cara quando Janete Clair precisou eliminar todo o elenco em Anastácia, a Mulher sem Destino."
Era Leila Diniz, melhor amiga de Marieta com quem ela chegou a dividir apartamento e de quem mais tarde, depois da sua morte, "adotou" a filha Janaína.
"Depois do terremoto é que a Anastácia ficou sem destino mesmo", ela brinca. Era uma fase em que as novelas eram completamente fora da realidade brasileira. "Eu cheguei a ser apedrejada na rua como Rato, mas hoje o público está muito treinado, os artistas têm muito mais opções de sobrevivência, daí o meu espanto."
Marieta é de uma geração em que o público não sabia onde os atores moravam, como eram suas casas, qual a marca de seus carros e o nome das amantes - passadas e futuras. "Hoje, tudo dá status e acho que por isso invadiram minha vida com tanta naturalidade", desabafa.
E acrescenta: "Nunca soube onde morava a Helena Ignez - que era uma grande atriz, mulher do Gláuber, a quem eu substituí em Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, nem a marca do carro do Vianinha (Oduvaldo Viana Filho), que, provavelmente, andava de ônibus." "Sinto-me um dinossauro."
Hoje, a construção de um ator faz- se de outra maneira. "Antes de completar aqueles anos essenciais de formação, já quer ter uma cobertura na Barra e exibir a marca do carro; é um marketing montado em cima de um sucesso material, apenas."

Futuro - Mãe de uma jovem atriz, Silvinha, que está trabalhando com Gabriel Vilela, ela viu crescer uma geração de filhos de atores. "Nandinha, Tarcisinho, Gabriela Duarte, há um olho em cima deles que não teriam se não fossem filhos de quem são, isso deve atrapalhar ao mesmo tempo em que dá projeção; então o negócio é ter calma, investir no talento e não embarcar nessa canoa." Outro dia, Marieta soube de um jovem ator que não aceitou um papel na novela porque ia perder o cachê como apresentador de baile de debutante, mais rentável. "Fiquei pensando: `Ele é um ator? Não, isso é uma história paralela que inventaram por aí.'"
Cada vez ela olha o futuro da arte brasileira com mais temor. "Que escola o ator brasileiro tem? E qual a escola dos atores lá fora?", pergunta. Marieta estremece quando ouve um ator falar dos seus objetivos - o personal trainner em primeiro lugar, o apartamento em segundo e o carro em terceiro. "A realidade do ator não é essa."


Marieta Severo, sem querer, compara. "Bons atores devem perseguir a verdade, correr atrás dela e não de um personal trainner." Para ela, esse é o nosso panorama pasteurizado, consumista, competitivo. "Não interessa quem voou para que lado, interessa o vôo que cada um pode ter e explorar isso ao máximo."
"O caminho está dentro de cada um, mas é aí que os terrenos se misturam." Deve ser isso que põe o ator brasileiro na novela da tevê e no anúncio do intervalo, veiculando a peça ou o disco com as músicas da novela que paga pouco, mas torna possível esse rodízio espetacular e cada vez mais rápido. "Só fiz propaganda duas vezes", ela lembra.
Marieta bebeu comédia na chanchada brasileira. "Oscarito, Eliane, Zezé Macedo, quem se lembra deles hoje em dia?", pergunta. "Essa linha fazia parte do meu imaginário, brasileiro tem muito humor: Procópio Ferreira, Dulcina de Moraes, Manuel Pêra, Fregolente, Grande Otelo tinham grande humor, Fernanda Montenegro é uma palhaça quando quer, Marília Pêra, Regina Casé, Claudia Jimenez - o ator brasileiro lida com humor e, de repente, não é nada disso que importa."


Ela insiste na mesma tecla com os amigos. Marieta tem sentido de missão. "Sempre tive jeito com criança, queria ser normalista; no colégio sempre chamavam a Marietinha para contar histórias." Que histórias ela contava? "Sangrentas, eu sabia que agradava, lembro-me da cara aterrorizada das crianças, fascinadas."
Sangue das histórias - A carreira trocou de rumo quando o Instituto de Educação mudou para a Lagoa, em frente do Tablado. "Aí atravessei a rua e mudei a história." No fundo ela sabe que quando contava histórias de terror para as crianças já era atriz. "Adorava essa relação com a platéia, a sensação de estar dominando as crianças, a quantidade de sangue das histórias era proporcional a esse poder." Esse domínio fica claro em A Dona da História.


"Na época de No Natal a Gente Vem te Buscar, peguei um álbum da minha mãe que desmontei e remontei; fui recuperando minha imagem, meu arsenal para entrar no palco." O arsenal foi construído também com ajuda da psicanálise. "Durante uns 15 anos, na nossa época a gente buscava as respostas dentro da gente, estava muito interessada em mudar o mundo, a começar por nós mesmos."
Primeiro fez análise com Carlos Byington, pai da cantora Olívia, depois com Arnaldo Fraga Dias, que se matou no consultório, na véspera da sua consulta. "Cheguei, toquei a campainha e nada, então o dono da confecção ao lado me avisou; saí de lá correndo, ninguém ia convidar-me para o enterro", recorda ela.

"Busquei refúgio na casa de Nara Leão, psicóloga, minha comadre." Voltou para Byington até que ele se mudou para São Paulo. "Então estourei: `Vocês não são sérios, vocês morrem, se mudam, para mim, chega.'" Nunca mais fez análise.
Mas vai multiplicando seus personagens fora do divã. Ela descende de uma linhagem nobre da arte brasileira, aquela que nunca desiste, que passou a produzir as próprias peças para ter certeza de que montaria o que queria. Nunca descansa nem desliga - tomou quatro xícaras de café durante a entrevista.


Múltipla assim, ela só podia germinar múltiplos à sua volta. Madrinha de Francisco, filho de Nara; de Francisco, filho de Andréa Beltrão; avó de Francisco e mulher de Francisco Buarque por três décadas, Marieta suspira, brincando: "Acho que exageraram: não é muito Chico para uma vida só, não?"

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